Domingo dá depressão mesmo, disso todo mundo já sabe. É dia da gente pensar na vida, no que tem pra fazer, marcar de começar dieta, resoluções na vida, tudo aquilo que infelizmente vamos esquecer na segunda e lembrar só no próximo domingo. É dia de assistir fantástico e ver quantas coisas ruins acontecem no mundo, mas também ver uma esperança no fim do túnel como aquele pai que desenvolveu a bota para jogar futsal com o filho deficiente e prometeu desenvolver mais uma para a dupla de irmãos dos EUA que competem triatlo juntos. Aquilo foi realmente de encher os olhos d'água.
É dia principalmente de almoçar na casa dos meus avós. Não é todo domingo que vamos lá, mas aquele que vamos é maravilhoso e não digo só pela comida divina que minha vó faz, mas pela companhia, união, o estar junto. Minha mãe é filha única, portanto eu e minha irmã somos únicas netas do vô quiqui e da vó Ana o que faz com que sejamos paparicadas desde criança. Quiqui deriva de Henrique e Ana de Ana Maria, nome que darei aos meus filhos se um dia eles existirem. Todo almoço são os mesmos ritos. Minha vó sempre pergunta quando vou arrumar um namorado e faz planos de como conseguir o marido perfeito pra mim, para não perder o costume fico brava, faço cara feia, ou invento uma resposta infeliz para completar a brincadeira. Meu avô coloca muito pouco sorvete no meu prato como se nada estivesse acontecendo enquanto enche o prato da minha irmã só para me ver ficar furiosa. Depois minha vó me manda sair mais, me arrumar mais, passar mais maquiagem no dia a dia, entre outras coisas que ela julga como importantes conselhos. Meu avô faz mais algumas piadinhas só pra ver a gente sorrir. Faço minhas graças, minha irmã faz as delas, rimos muito e vamos embora prontos para outra semana.
Esse domingo em especial fomos almoçar nos meus avós, tudo corria na mais perfeita ordem, seguindo os mesmos costumes até que meu avô contou que tinha ido até o clube da cidade e jogado pão para os patos no lago. E é aí que entra a minha crise de domingo. Quem vê de fora acha que é bobeira, mas pra mim não foi. Se hoje nossos costumes são aqueles que descrevi no parágrafo anterior, antes não era. Eu, minha mãe e minha irmã íamos todo santo domingo bem cedinho para a casa dos meus avós onde tomávamos café da manhã. Quando o domingo era muito ensolarado íamos para o clube nadar, mas quando não era meu avô levava eu e minha irmã ao clube para passear. Lá nós brincávamos muito, ele balançava a gente no balanço, cuidava para que não caíssemos dos brinquedos, rodava os brinquedos, levava para tomar água direto na bica e nunca se esquecia de separar pão para levar para os patos. Entende por que me deu tristeza? Eu abandonei aquele costume, mas meu vô não. Ele continua indo lá todo santo domingo para jogar pão para os patos e só Deus sabe a importância que isso tem pra ele. Eu adorava aqueles domingos, eram preciosos, fazem parte da minha infância. E quando eu percebi que eu abandonei uma coisa simples da minha infância eu me senti em imensa falta com ele porque foi como se eu tivesse o abandonado também. Eu me arrependi de as vezes ter perdido a paciência com seu jeito sistemático enquanto ele jamais perdeu comigo em minhas diversas birras. Me arrependi de ter deixado ás vezes de lado duas pessoas tão importantes da minha vida por falta de tempo, por priorizar outros compromissos ás vezes sem grande importância. E me bateu um medo enorme de perder aquelas duas pessoas por quem eu tenho um merecido amor incondicional. O mesmo medo que bateu quando eu tinha 10 anos e meu vô disse que "iria embora" depois de 20 anos. Meus são responsáveis por grande parte daquilo que sou hoje.



ps: Já escrevi sobre o meu avô em outro texto, quem quiser conferir clique no link: http://www.futilefutil.blogspot.com.br/2011/08/pentelhices-ii.html

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Dia desses estava mexendo em meu armário de bagunças, todo mundo tem um e sabe como é. No meu caso não é bem um armário é uma sapateira daquelas acopladas com a cômoda. Uma sapateira frustrada coitada, nunca chegou a guardar um sapato. Encontrei muita coisa: uns papéis velhos que já não fazem o menor sentido, meu histórico escolar pra jogar sempre na minha cara o quanto sou ruim em exatas, alguns livros que não faço ideia mais de quem são e elas, minhas sapatilhas de ponta da época do balé.
Toda vez que reencontro minhas sapatilhas fico namorando-as. Coloco nos pés, arrisco uns passinhos (não aconselho ninguém a fazer isso em casa) e até dou uma passeadinha pela casa "Olha que que eu achei, mãe. Que saudade". Estão velhinhas e sujas, sapatilhas de balé quanto mais velhas mais bonitas porque significa que foram muito usadas. Usei há uns 6 anos, depois parei por falta de tempo. Foi assim que eu parei as coisas que mais fazem falta hoje, por falta de tempo. Precisava priorizar os estudos na escola e o tempo em que fazia as aulas estava me atrapalhando. Tenho pena por elas que ficam guardadas, esperando para dar uma voltinha rápida pela casa e que jamais participarão de um grande espetáculo.
Encontrei também coisas de rolinhos antigos, amizades do tempo de escola, bobeirinhas que eu tinha mania de guardar. Tem coisa até que eu já joguei fora, lembro de época que tinha muito mais. Mas só joguei aquilo de quem não teve um papel muito bom no meu passado, o que é minoria. Uma coisa que aprendi na vida é que rolinho do passado é coisa intocável, nunca deve ser revivido. No plano das ideias tudo é bem mais lindo que se você reviver com toda certeza não superará as expectativas alimentadas por anos. Será um grande desastre.
Devia ser crime reviver romances do passado. É como inventar de voltar às aulas de balé 6 anos depois. Você se lembra que os pés machucam, o corpo dói e que o colant te faz parecer ainda mais gorda. Percebe que aquele passo de nome esquisito ainda é impossível, que você nunca terá elasticidade suficiente para o espacate e que jamais será o grande destaque do espetáculo. É tão melhor guardas as sapatilhas, há dores que não há remédio que cure.

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